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21 de fevereiro de 2011
da dignidade dos professores
"Talvez eles me tenham perseguido por eu nunca me ter portado da forma como se esperava que um professor se portasse. (...) Comecei por ser um rebelde (...) Incendiava-me a preocupação de estabelecer a dignidade da minha profissão. Talvez isso os tivesse enfurecido mais do que outra coisa qualquer. A indignidade que tínhamos de suportar como professores na altura em que comecei a leccionar... não ias acreditar. Sermos tratados como crianças. Aquilo que os superiores diziam era lei. Inquestionável. Tem de estar aqui às tantas horas, assinar o livro de pontos a horas. Vai passar tantas horas na escola. E será requisitado para outras tarefas à tarde e à noite, embora isso não esteja mencionado no contrato. Todo o tipo de abusos e mesquinhices. Uma pessoa sentia-se humilhada." in Casei com um comunista de Philip Roth.
6 de janeiro de 2011
Nuno Moura, Os livros de Hélice Fronteira, Regina Neri, Vasquinho Dasse, Ivo Longomel, Adraar Bous, Robes Rosa, Estevão Corte, Alexandre Singleton
Um livro de poesia dividido em vários capítulos, com correspondente número de personagens/pseudónimos: Hélice Fronteira "gosto das mesma palavras que tu"; Regina Neri "o monstro do entrepernas"; Vasquinho Dasse "histórias muito pequenas e muito más"; Ivo Longomel "piudefule"; Adraar Bous "beauty contest talcum powder"; Robes Rosa "teatro para cães"; Estevão Corte "estudos sobre a sexta-feira 13"; Alexandre Singleton "relatório & contas". Pelos títulos dos vários "livros" que constituem este livro maior, podemos ver o toque de humor e ironia com que Nuno Moura discorre sobre variados assuntos. Predominando nalgumas passagens um estilo mais descritivo, noutras mais surreal, resulta no conjunto como uma obra urbana, contemporânea e musicalmente poética.
Com primeira edição em 2000 pela Mariposa Azual (não sei se teve re-edição), foi resultado de uma bolsa que o autor confessa na contracapa que gostaria de voltar a receber: "É que passado três anos da 1ª Bolsa, já se pode concorrer outra vez. Mesmo sem ler o livro, o que é que você acha melhor?"
neste link podem ler um dos poemas incluído no livro, num estilo urbano-crítico-melódico, à semelhança das suas performances poéticas no duo Copo, onde faz parceria com Paulo Condessa.
Com primeira edição em 2000 pela Mariposa Azual (não sei se teve re-edição), foi resultado de uma bolsa que o autor confessa na contracapa que gostaria de voltar a receber: "É que passado três anos da 1ª Bolsa, já se pode concorrer outra vez. Mesmo sem ler o livro, o que é que você acha melhor?"
neste link podem ler um dos poemas incluído no livro, num estilo urbano-crítico-melódico, à semelhança das suas performances poéticas no duo Copo, onde faz parceria com Paulo Condessa.
4 de janeiro de 2011
Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta
Fazendo uso das palavras do comité do Nobel da Literatura, que atribuiu o prémio a Mario Vargas Llosa pela sua "cartografia de estruturas de poder e pelas suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual", podemos dizer que este seu último livro será o melhor exemplo dessa descrição. Escrever “O Sonho do Celta” (Quetzal, 2010), lançado na mesma altura em que se soube que tinha ganho o Nobel, foi segundo o próprio, uma grande empresa. Ficcionar a vida de uma personagem riquíssima da história de finais de século XIX e início do século XX, mas esquecida pelo tempo, poderia ter tornado o romance de Vargas Llosa demasiado histórico com tudo o que isso tem de mau – nomeadamente com factos em excesso - mas o autor soube dosear a informação a disponibilizar ao leitor e conseguiu colocar-se de facto na pele da personagem (embora com uma narrativa na terceira pessoa) para relatar a vivência de Roger Casement, “um patriota irlandês”, que percebeu o que queria para a sua pátria depois de sentir o que outros viviam noutros locais do mundo.
O sonho da juventude de Roger Casement, e que fez com que partisse para África, baseava-se nos três C’s: “civilização, cristianismo e comércio livre”. Cedo percebeu no entanto que não era isso propriamente que acontecia por terras africanas, com a balança sempre a pender para a parte do comércio e não no sentido mais justo do termo. Roger Casement ficou revoltado com a perfídia do colonialismo. Não apenas pelo facto de os colonos “invadirem” um país, e tornarem os indígenas praticamente escravos e autómatos. Foi também por os colonos dizerem a esses indígenas que estavam a fazer uma coisa completamente diferente e que era para o seu bem. Roger discutiu isso com várias pessoas com quem se cruzou na sua estadia. Para contrariar todos aqueles que se aproveitavam do desconhecimento e da bondade dos indígenas, havia quem lhe dissesse que tinha ido para lá “a fim de prestar ajuda aos nativos, “que tanto precisam, nesta terra onde Belzebu parecia estar a ganhar a batalha ao Senhor””p.93 (a referência religiosa estará presente ao longo de todo o romance). O próprio Casement constatou a determinada altura - depois de assistir à violência a que eram sujeitos os indígenas - que “se alguma coisa [tinha aprendido] no Congo, é que [não havia] pior fera sanguinária que o ser humano. p.94 É-nos pincelada pelo autor uma vasta galeria de personagens, sobretudo europeus, alterados por África. Há uma discussão constante sobre se são os europeus que em África ficam maus e agressivos, ou se é o território que desperta neles o que têm de pior. Depois de fazer estas constatações ao fim de poucos anos, ele decide lutar contra elas, não com armas, mas com o que sabia fazer melhor: relatar as atrocidades e denunciá-las ao mundo.
A sua estadia em África forma apenas a primeira parte do romance. Seguiram-se depois a Amazónia peruana para onde é enviado pelo governo britânico, e o regresso à sua Irlanda, onde vai viver os maiores dilemas de espírito à medida que a sua saúde se deteriora.
excerto
Se não tivesse feito nos seus cadernos um registo tão minucioso de datas, lugares, testemunhos e observações, na sua memória tudo aquilo andaria em revoada e misturado. Fechava os olhos e, num torvelinho vertiginoso, apareciam e reapareciam aqueles corpos de ébano com cicatrizes avermelhadas como viborazinhas a fender-lhe as costas, as nádegas e as pernas, os cotos dos braços cerceados das crianças e dos velhos, as caras macilentas e cadavéricas, de onde parecia terem extraído a vida, a gordura, os músculos, ficando nelas apenas a pele, a caveira e aquela expressão ou esgar fixo que indicava, mais que a dor, a infinita estupefacção por aquilo que sofriam.p.90
2 de janeiro de 2011
David Mourão-Ferreira, Gaivotas em Terra
“Gaivotas em Terra”, livro vencedor do Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa em 1959, é o conjunto de quatro novelas (“Tal e Qual o Que Era”, “E aos Costumes Disse Nada”, “Casal Venha Lisboa” e “Agora o Fado Corrido”), escritas nos anos cinquenta por David Mourão-Ferreira (1927-1996), poeta, crítico, novelista e contista, ensaísta e dramaturgo, para além de ter assumido alguns cargos no governo e em diversos institutos e imprensa nacional, e que marcou a sua escrita por um humor mordaz e uma ironia certeira, sendo estas novelas disso um bom exemplo.
Os textos - que como sugerido por vários críticos ao longo das décadas seguintes e assumido também pelo próprio autor, se poderia ter constituído como um romance ou pelo menos um seu esboço, mas que no fim se quedaram como novelas autónomas - têm em comum vários aspectos e é isso mesmo que lhe dá a unidade referida em cima: a personagem central é uma mulher ou é o tema central da relação do homem com a mulher; são novelas urbanas cujo pano de fundo é Lisboa numa celebração e homenagem à cidade “menina e moça” retratada no poema de Ary dos Santos, aos seus recantos, hábitos, cores e cheiros de vários bairros; e são escritos numa linguagem própria usando por vezes as personagens alguns termos chocarreiros e outros uma linguagem de certa burguesia que ainda sobrevive em determinados centros urbanos.
As novelas foram escritas, como se escreveu em cima, nos anos cinquenta, num tempo em que não se vivia tão depressa, mas que mantêm em certos traços a mesma actualidade e uma frescura por vezes surpreendente. No fim de contas, o país não pode ter mudado assim tanto em sessenta anos. Para o bem, para o mal, e no que aos brandos costumes diz respeito.
Li pela primeira vez este livro (Editorial Presença, 9ªedição, 1998) há pouco mais de dez anos e voltei a relê-lo agora no final deste ano que passou. Aconselho que continue a ser lido, especialmente pelas novas gerações a quem os livros portugueses do século XX pouco vão dizendo, a não ser que estejam inscritos num qualquer programa de ensino.
30 de dezembro de 2010
Jorge Luis Borges, Ficções
“Ficções”, obra considerada como uma das grandes impulsionadoras da literatura sul-americana do século XX, publicado originalmente em 1944 (reimpresso pela Teorema em 2009), reúne uma série de contos que têm como temas predominantes, aqueles que ao longo da sua carreira marcaram Jorge Luis Borges como escritor: a memória, a émula do tempo, os labirintos físicos e mentais, os labirintos do pensamento, os espelhos e simetrias; a análise de livros eles próprios ficcionados ou como explica o autor no prólogo a “escrita de notas sobre livros imaginários”; a tautologia da própria literatura e a arte da dialéctica, mas consigo próprio, com a sua consciência e com um mundo muito próprio que se foi aprofundando com a cegueira do escritor argentino; um dos contos mais conhecidos, “A biblioteca de Babel”, narra a criação de uma biblioteca feita por um qualquer demiurgo onde existiria a totalidade de todos os livros potencialmente já escritos ou por escrever; e noutros contos aborda-se o estudo psicológico das personagens, especialmente na segunda parte do livro, em que Borges analisa nos diversos textos a dicotomia entre a coragem e a cobardia de se ter de tomar uma decisão, de seguir inevitavelmente um dos caminhos no “jardim dos caminhos que se bifurcam” explanado no conto que finaliza a primeira parte.
O livro divide-se em duas parte. Da primeira, "O jardim dos caminhos que se bifurcam" fazem parte os contos "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Pierre Menard, autor de Quixote", "As ruínas circulares", "A lotaria em Babilónia", "Análise da obra de Herbert Quain", "A biblioteca de Babel" e "O jardim dos caminhos que se bifurcam". A segunda parte, "Artifícios" é constituída pelos contos "Funes ou a memória", "A forma da espada", "Tema do traidor e do herói", "A morte e a bússola", "O milagre secreto", "Três versões de Judas", "O fim", "A seita da Fénix" e "Sul".
excerto:
“argumentei (...) que a minha cobarde felicidade provava que eu era homem capaz de levar a aventura a bom termo. Desta fraqueza tirei forças que não me abandonaram. Prevejo que o homem se há-de resignar dia a dia a empresas cada vez mais atrozes; em breve não haverá senão guerreiros e bandidos; dou-lhes este conselho: O executor de uma empresa atroz tem de imaginar que já a cumpriu, tem de se impor um futuro que seja irrevogável como o passado. Assim procedi eu, enquanto os meus olhos de homem já morto registavam o fluir daquele dia que era talvez o último, e a noite a espalhar-se.” p. 83
28 de dezembro de 2010
Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego
“Matteo perdeu o emprego” (Porto Editora, 2010) é sobre um homem: Matteo, mas também sobre todas as outras personagens que nos conduzem a Matteo, de forma alfabética e com pequenas referências visuais (como é referido numa nota inicial “os nomes das personagens têm origem num trabalho de Daniel Blaufuks”). O livro pode ser lido como o conjunto de pequenas narrativas, que correspondem a capítulos, e que se podem constituir como textos individuais, mas cujo objectivo é levar-nos até ao texto final de Matteo. Os “ganchos” no final de cada capítulo, que normalmente são escondidos de forma laboriosa pelo autor de um livro, são aqui acentuados por Gonçalo M. Tavares de forma propositada. O autor quer que nos dirijamos para um determinado sentido ou direcção, mas vai deixando pequenas pistas para que o leitor se interrogue do porquê de irmos numa direcção e não noutra qualquer. Ao contrário da rotunda, um dos símbolos deste livro, o autor coloca-nos num cruzamento, em que podemos virar à direita, à esquerda ou seguir em frente, mas com a condição de não voltarmos para trás.
Tão importante como a narrativa global em si, é o próprio posfácio, em que o autor reflecte sobre o que escreveu. Aqui se nota o seu raciocínio célere (que poderá explicar parte da sua prolificidade) mas ponderado, quase como que pesado e acertado à grama numa balança digital. A capacidade de racionalizar os temas que definem uma sociedade, especialmente as do século XX, associada a uma capacidade de interligar essa racionalidade com o nosso quotidiano de uma forma pouco comum, mas clara e transparente, é o que torna talvez Gonçalo M. Tavares único na literatura contemporânea portuguesa.
Excerto
“Cohen era alguém que dominava por completo a cabeça ou, pelo menos, a parte da cabeça que se liga aos actos voluntários. Não era louco. Pelo contrário, Cohen ensinava na Faculdade de Letras. Era um respeitado professor; também gozado, claro, mas respeitado intelectualmente pelos seus escritos, pelos seus estudos – a escrita, era de facto, a única maneira de ele estar presente sem o seu corpo o deixar embaraçado, o seu corpo indócil e incontrolável. Aliás, em Cohen a dedicação crescente à escrita era consequência dessa inabilidade estrutural do corpo. Quando escrevia não tinha tiques ou, pelo menos, se os tivesse era um daqueles lá em cima, nas sobrancelhas – o de as levantar várias vezes. Mas sem espectadores, sem testemunhas, esse tique era nada – e nada o envergonhava.” p.36
19 de dezembro de 2010
Nuno Moura: "A fluência de Magda - the new cochicho"
destinatário alexandre o'neal:
um suicida deixou escrito
ando-me a vingar.
um mal despedido pediu
em tribunal só
que o deixassem ir buscar
as suas últimas coisas
o livro à descoberta de portugal
edição digest
e uma amostra de perfume carminho.
uma amante atrasou-se uma vez
e ele furioso casou com ela.
uma amante atrasou-se uma vez
e ele furioso foi logo divorciar-se.
favores de sangue borrado
dão enlatada na goela.
perante a lei romana do mercado
a igreja prepara agora os primeiros poetas digitais.
um pintor suicida deixou escrito numa pedra
se eu tivesse uma tela tamanho gêtrês
iam perceber.
um amigo dizia ao outro
caso com ela
mas é metade para cada um.
um senhor de idade diz
aceite um último gesto deste cavalheiro
e a senhora de idade responde
abafe-me então.
um comité analisa se as razões pelas quais
nos separamos
são as mesmas pelas quais nos juntamos.
deram mais um poeta
como incapacitado para sentir.
as montanhas azuis da austrália desbotaram
revelando em tamanho autedóre
os princípios originais do senhor não deverás.
não atropelarás não integrarás não passarás
não repugnarás
não te sairá pela culatra
não desmanches que é para mais tarde recordar
não procures água na lua
vai-te casar e está quieto
quem é teu amigo quem é
este trabalho estava inexplicavelmente assinado num canto
por comissão de festas do olimpo
(também se conseguiu saber que o grupo de cantares de
cabaréte
actua às sextas por cima do reino das dinamarquesas
toma nota)
a selecção nacional de poetas seniores continua a empatar
e a de esperanças a não apresentar soluções no ataque.
não é que parta isto tudo
mas reguila.
ps:
oeiras vai ter uma alameda dos poetas
no ano dois mil.
isso ri-te.
in Os livros de Hélice Fronteira, "gosto das mesmas palavras que tu" Mariposa Azual
um suicida deixou escrito
ando-me a vingar.
um mal despedido pediu
em tribunal só
que o deixassem ir buscar
as suas últimas coisas
o livro à descoberta de portugal
edição digest
e uma amostra de perfume carminho.
uma amante atrasou-se uma vez
e ele furioso casou com ela.
uma amante atrasou-se uma vez
e ele furioso foi logo divorciar-se.
favores de sangue borrado
dão enlatada na goela.
perante a lei romana do mercado
a igreja prepara agora os primeiros poetas digitais.
um pintor suicida deixou escrito numa pedra
se eu tivesse uma tela tamanho gêtrês
iam perceber.
um amigo dizia ao outro
caso com ela
mas é metade para cada um.
um senhor de idade diz
aceite um último gesto deste cavalheiro
e a senhora de idade responde
abafe-me então.
um comité analisa se as razões pelas quais
nos separamos
são as mesmas pelas quais nos juntamos.
deram mais um poeta
como incapacitado para sentir.
as montanhas azuis da austrália desbotaram
revelando em tamanho autedóre
os princípios originais do senhor não deverás.
não atropelarás não integrarás não passarás
não repugnarás
não te sairá pela culatra
não desmanches que é para mais tarde recordar
não procures água na lua
vai-te casar e está quieto
quem é teu amigo quem é
este trabalho estava inexplicavelmente assinado num canto
por comissão de festas do olimpo
(também se conseguiu saber que o grupo de cantares de
cabaréte
actua às sextas por cima do reino das dinamarquesas
toma nota)
a selecção nacional de poetas seniores continua a empatar
e a de esperanças a não apresentar soluções no ataque.
não é que parta isto tudo
mas reguila.
ps:
oeiras vai ter uma alameda dos poetas
no ano dois mil.
isso ri-te.
in Os livros de Hélice Fronteira, "gosto das mesmas palavras que tu" Mariposa Azual
8 de dezembro de 2010
Cormac McCarthy: "Este país não é para velhos"
Um homem, Llewelyn Moss, no meio do deserto inicialmente à caça de antílopes, apodera-se de uma mala cheia de dinheiro e leva-a para casa. Atrás de si ficou um rasto de destruição, resultado de um negócio de droga que correu mal na fronteira do México com os Estados Unidos. Levar a mala consigo pode ter sido o maior erro da sua vida. Isso ou voltar lá no dia seguinte num acto de misericórdia. A partir desse momento tudo será diferente na sua vida: será perseguido por Anton Chigurh, um sociopata que parece não poder ser destruído por nada, mas que destrói tudo à sua volta; por Carson Wells, outro atirador contratado para recuperar o dinheiro; e ainda, mas num sentido diferente, pelo xerife Ed Tom Bell, um homem em constante contradição entre o que faz ou quer fazer e o que pensa, que parece não se ter conseguido adaptar aos novos tempos. O xerife ao resolver o crime de droga, tenta arranjar uma solução para Moss e para a sua mulher que também teve de fugir por medo de represálias.
Cormac McCarthy, com este romance escrito em 2005, e que passou a filme pelos irmãos Coen (quatro óscares em 2008: filme, realizador, argumento adaptado e actor secundário, neste caso para Javier Bardem) traça-nos, muito ao seu estilo, uma América dos anos oitenta crua, violenta, com muitos vícios e loucura onde o fim justifica os meios.
Cormac McCarthy, com este romance escrito em 2005, e que passou a filme pelos irmãos Coen (quatro óscares em 2008: filme, realizador, argumento adaptado e actor secundário, neste caso para Javier Bardem) traça-nos, muito ao seu estilo, uma América dos anos oitenta crua, violenta, com muitos vícios e loucura onde o fim justifica os meios.
7 de dezembro de 2010
David Mourão-Ferreira: excerto de Gaivotas em Terra
Início da novela Casal Venha Lisboa. Fez-me lembrar "os anões" de Harold Pinter. Mais um para reler.
"- E Roma? Que tal?
Em Roma tinha estado apenas uma horas.
E vinha com os nervos arrasados: que pesadelo a noite em Nairobi!
- Em Nairobi? - perguntou ele.
- Sim... No Quénia. A capital do Quénia. A terra dos Mau-Mau.
- Ah!
- Que horror! Que horror!
Dalila declamava. E, por baixo das palavras, arranhava-se o mito: Dalila parecia declamar o papel de Clitmnestra. Era isso: Clitmnestra.
- Chega?
- Chega.
Interrompera a narrativa para lançar nos copos mais dois dedos de uísque.
- Gelo?
Sertório fez que sim com a cabeça.
- Água?
- Um pouco. E tu?
- Não! Agora, não. Puro! Puro!"
"- E Roma? Que tal?
Em Roma tinha estado apenas uma horas.
E vinha com os nervos arrasados: que pesadelo a noite em Nairobi!
- Em Nairobi? - perguntou ele.
- Sim... No Quénia. A capital do Quénia. A terra dos Mau-Mau.
- Ah!
- Que horror! Que horror!
Dalila declamava. E, por baixo das palavras, arranhava-se o mito: Dalila parecia declamar o papel de Clitmnestra. Era isso: Clitmnestra.
- Chega?
- Chega.
Interrompera a narrativa para lançar nos copos mais dois dedos de uísque.
- Gelo?
Sertório fez que sim com a cabeça.
- Água?
- Um pouco. E tu?
- Não! Agora, não. Puro! Puro!"
30 de novembro de 2010
António Lobo Antunes: "Sôbolos rios que vão"
O novo romance de António Lobo Antunes dilui-se de forma positivamente feliz num rio de memórias, de fios finitos atados por personagens presas num puzzle intrincado de emoções e acontecimentos dispersos; saudades escondidas entre a nascente do rio Mondego de onde brotam fragmentos sólidos da infância: os hotéis e os campos de ténis, os pais, o avô a ler o jornal, a harpa e as minas de volfrâmio escavando momentos, os comboios como retornos rítmicos ao passado seguindo um trilho tenuamente definido e com muitas curvas. A.L.A. expõe-se e expõe a fragilidade de um Antoninho ou senhor Antunes que consciencializa de forma gradual que o fim de quinze dias de internamento pode não querer significar o regresso ao quotidiano; expõe a falta de dignidade do que é ser paciente num espaço que por demasiado público se torna incómodo, o hospital, onde não se tem o controlo, onde não se pode esconder aquilo que não se quer mostrar. A.L.A. prova mais uma vez que é um mestre do disfarce e da poesia em prosa. Porque mais do que um romance, "Sôbolos rios que vão" é um longo poema.
19 de novembro de 2010
António Lobo Antunes: "apesar de eu vazio ou seja não vazio"
"(...) conheço desconsolos nas coisas, não conheço nas pessoas e portanto não me queixo, o que é o desconsolo aliás, não tenho ocasião para me entristecer ou não há o espaço no meu peito que a tristeza requer apesar de eu vazio ou seja não vazio porque uma vela num castiçal antigo que a prima que tomava conta de mim plantava à cabeceira,(...)"
in "Sôbolos rios que vão", D. Quixote, p.29
in "Sôbolos rios que vão", D. Quixote, p.29
16 de novembro de 2010
valter hugo mãe: "a máquina de fazer espanhóis"
Depois de “o nosso reino”, “o remorso de baltazar serapião” e “o apocalipse dos trabalhadores”, valter hugo mãe continua com “a máquina de fazer espanhóis” - no que aos romances diz respeito - a sua jornada literária na evocação de vidas comuns, que são as que no fundo mais sentimos e mais nos dizem respeito.
Neste livro, e apesar do título, valter hugo mãe escreve sobre Portugal e acima de tudo sobre o que é ser português, ou de como por vezes Portugal parece ser uma máquina adormecida no tempo e que acordando de um marasmo sonolento só sabe fazer espanhóis.
Tendo como personagem principal o Sr. Silva, nome não escolhido ao acaso e comum a muitas outras personagens do livro, o autor faz-nos vivenciar a sua história - que é talvez a da maior parte de nós no futuro - e a história dos seus fantasmas, e as histórias e os fantasmas dos novos companheiros do Sr. Silva no lar Feliz Idade para onde é levado pela filha.
A partir da entrada no lar são ternas histórias as que se vão sucedendo e que se vão lentamente aproximando do fim, vidas que vão trocando de quartos, numa magnífica metáfora da própria vida, como se os “inquilinos” do Feliz Idade, aos oitentas anos, regressassem ao banco de suplentes depois do aquecimento não havendo no entanto nada a seguir: nem jogo (?a vida?), nem jogadores (?os que vão primeiro?), nem sequer o árbitro (?Deus?). Apenas o Cubillas na parede do quarto da D. Leopoldina.
valter hugo mãe fala-nos também – porque é de falar que se trata por vezes – dessa coisa estranha que é ser velho nos dias de hoje. Do que é perder muitas vezes a dignidade e ser encostado na borda do prato depois da sociedade os ter chupado até ao tutano do osso. Como diz o Sr. Silva, “pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor (...). depois, ainda nessa mesma tarde trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma”.
E se é verdade que as pessoas sendo diferentes reagem normalmente de maneira diferente, é também verdade que o medo da morte pode levar a sentimentos semelhantes, e é assim que podemos assistir às traquinices de dois velhos de oitenta anos de mãos dadas a espreitarem de madrugada os quartos uns dos outros, como se regressassem a uma infância saudosa. Um dos pontos altos do romance é o delicioso diálogo entre o Sr. Silva e o Sr. Pereira que retrata esta cena.
Atingindo uma maturidade autoral significativa com a escrita deste livro, valter hugo mãe escreve então sobre uma máquina de fazer espanhóis, a máquina que tritura por vezes tudo o que um “bom homem” tem ainda para dar ao seu país esquecendo por vezes o que devia ter dado quando teve oportunidade.
“a máquina de fazer espanhóis” é no entanto um livro optimista ao tornar possível no nosso pensamento a ideia de que podemos através de uma catarse expulsar alguns dos males com que vivemos, mas que fazem parte da nossa herança social e cultural do século passado.
E está lá tudo: as memórias de supostos “fantasmas”, da ditadura, do fanatismo do futebol, da igreja, do pessimismo com que os portugueses parecem não conseguir sobreviver. E estão lá os fantasmas dessas memórias, sem lençol na cabeça, bem espremidos, como que servidos num prato em que cada um só come o que quer. Mas desengane-se quem pensa que esta é uma refeição servida à mesa de um restaurante de fastfood: “a máquina de fazer espanhóis” é comida para o espírito, portuguesa e caseira. E da melhor que se serve nos dias que correm.
a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe
Objectiva-Alfaguara
2010
Nota: publicado originalmente em http://orgialiteraria.com/
Neste livro, e apesar do título, valter hugo mãe escreve sobre Portugal e acima de tudo sobre o que é ser português, ou de como por vezes Portugal parece ser uma máquina adormecida no tempo e que acordando de um marasmo sonolento só sabe fazer espanhóis.
Tendo como personagem principal o Sr. Silva, nome não escolhido ao acaso e comum a muitas outras personagens do livro, o autor faz-nos vivenciar a sua história - que é talvez a da maior parte de nós no futuro - e a história dos seus fantasmas, e as histórias e os fantasmas dos novos companheiros do Sr. Silva no lar Feliz Idade para onde é levado pela filha.
A partir da entrada no lar são ternas histórias as que se vão sucedendo e que se vão lentamente aproximando do fim, vidas que vão trocando de quartos, numa magnífica metáfora da própria vida, como se os “inquilinos” do Feliz Idade, aos oitentas anos, regressassem ao banco de suplentes depois do aquecimento não havendo no entanto nada a seguir: nem jogo (?a vida?), nem jogadores (?os que vão primeiro?), nem sequer o árbitro (?Deus?). Apenas o Cubillas na parede do quarto da D. Leopoldina.
valter hugo mãe fala-nos também – porque é de falar que se trata por vezes – dessa coisa estranha que é ser velho nos dias de hoje. Do que é perder muitas vezes a dignidade e ser encostado na borda do prato depois da sociedade os ter chupado até ao tutano do osso. Como diz o Sr. Silva, “pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor (...). depois, ainda nessa mesma tarde trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma”.
E se é verdade que as pessoas sendo diferentes reagem normalmente de maneira diferente, é também verdade que o medo da morte pode levar a sentimentos semelhantes, e é assim que podemos assistir às traquinices de dois velhos de oitenta anos de mãos dadas a espreitarem de madrugada os quartos uns dos outros, como se regressassem a uma infância saudosa. Um dos pontos altos do romance é o delicioso diálogo entre o Sr. Silva e o Sr. Pereira que retrata esta cena.
Atingindo uma maturidade autoral significativa com a escrita deste livro, valter hugo mãe escreve então sobre uma máquina de fazer espanhóis, a máquina que tritura por vezes tudo o que um “bom homem” tem ainda para dar ao seu país esquecendo por vezes o que devia ter dado quando teve oportunidade.
“a máquina de fazer espanhóis” é no entanto um livro optimista ao tornar possível no nosso pensamento a ideia de que podemos através de uma catarse expulsar alguns dos males com que vivemos, mas que fazem parte da nossa herança social e cultural do século passado.
E está lá tudo: as memórias de supostos “fantasmas”, da ditadura, do fanatismo do futebol, da igreja, do pessimismo com que os portugueses parecem não conseguir sobreviver. E estão lá os fantasmas dessas memórias, sem lençol na cabeça, bem espremidos, como que servidos num prato em que cada um só come o que quer. Mas desengane-se quem pensa que esta é uma refeição servida à mesa de um restaurante de fastfood: “a máquina de fazer espanhóis” é comida para o espírito, portuguesa e caseira. E da melhor que se serve nos dias que correm.
a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe
Objectiva-Alfaguara
2010
Nota: publicado originalmente em http://orgialiteraria.com/
12 de novembro de 2010
José Luís Peixoto: Livro
"Livro", de José Luís Peixoto, publicado pela Quetzal, é um retrato sobre a emigração, a vida na aldeia, as gentes do interior; sobre os Ilídios, Cosmes, Adelaides e Lubélias que viviam com a incógnita do futuro e com a ausência de alguém como condição de vida; sobre as fontes no meio da aldeia e as cartas escritas entre a saudade e a paixão, ou as mães que não apareciam no escuro da noite para um aperto ou abraço de segurança; sobre as terras lusas, espanholas e francesas, cruzadas por caminhos agrestes, com figuras metaforicamente grotescas ilustrando o desconhecido que se infiltrava no corpo com a partida e que não se diluía na chegada.
"Livro" é sobre um viver que se constitui como parte visceral do que seguramos nas mãos, como se nos lêssemos a nós próprios, sendo envolvidos pela realidade ficcional do autor, ao mesmo tempo que este nos faculta a interpretação ou ponto de vista da sua relação com a escrita, as suas leituras e os seus autores.
"Livro" representa as gerações que envelheceram aos poucos, cá e lá, e que pouco dizem às novas gerações que não sabem envelhecer e o que isso custa; gerações que têm tudo à mão de semear quando antigamente semear era apenas e só tudo o que muitos sabiam ou podiam fazer para terem um bocado de comida quando o sol se punha.
José Luís Peixoto - de uma forma pausada mas real e intensa, características base do seu traço como escritor - revela um país que ao longo dos anos desaprendeu a lavrar os campos, mas que a seu tempo perceberá que tem de aprender a lavrar profundamente o conhecimento, sem esquecer a memória do que fomos, para poder apanhar mais tarde o fruto desse trabalho, dando às gerações futuras a sabedoria que estas não estão a saber agarrar no presente. Podem começar por ler o "Livro".
"Livro" é sobre um viver que se constitui como parte visceral do que seguramos nas mãos, como se nos lêssemos a nós próprios, sendo envolvidos pela realidade ficcional do autor, ao mesmo tempo que este nos faculta a interpretação ou ponto de vista da sua relação com a escrita, as suas leituras e os seus autores.
"Livro" representa as gerações que envelheceram aos poucos, cá e lá, e que pouco dizem às novas gerações que não sabem envelhecer e o que isso custa; gerações que têm tudo à mão de semear quando antigamente semear era apenas e só tudo o que muitos sabiam ou podiam fazer para terem um bocado de comida quando o sol se punha.
José Luís Peixoto - de uma forma pausada mas real e intensa, características base do seu traço como escritor - revela um país que ao longo dos anos desaprendeu a lavrar os campos, mas que a seu tempo perceberá que tem de aprender a lavrar profundamente o conhecimento, sem esquecer a memória do que fomos, para poder apanhar mais tarde o fruto desse trabalho, dando às gerações futuras a sabedoria que estas não estão a saber agarrar no presente. Podem começar por ler o "Livro".
4 de novembro de 2010
A Internet e os Livros - leituras de um leigo
O motivo que me levou à escrita deste texto foi a leitura de um artigo interessante de Clara Barata no Público: Como a rápida Internet está a conquistar o cérebro aos vagarosos livros. No artigo é repetida a ideia veiculada nos últimos anos de que a internet está a modificar o nosso cérebro e a forma e a velocidade a que o nosso cérebro interpreta o que lê.
Quanto ao que a minha experiência diz respeito não tenho muitas dúvidas: a internet é um meio de distracção como a televisão o era há uns anos atrás e continua a ser. Mas eu quando quero ler um livro, desligo a televisão, fecho o computador e leio. É uma questão de escolha e equilíbrio. Quanto à forma e velocidade como leio, noto apenas que o faço de maneira mais rápida e que fico impaciente mais cedo quando não gosto de um livro, do que ficava há uns anos atrás, mas isso pode ser facilmente justificado, como é óbvio, pelo incremento de exigência na qualidade que vou colocando nas minhas leituras.
No que diz respeito à importância da internet para os livros enquanto produto ou objecto a discussão é outra.
Primeiro, a análise como produto. Neste momento a internet é um meio cada vez mais importante, se não essencial, para as editoras, revistas e autores. Quase todos - especialmente os da nova geração, que representam o futuro da edição - já aderiram aos blogs e ao facebook. Os próprios cronistas e críticos das revistas da especialidade têm blogs e uma franja "significativa" de "fãs" nas redes sociais. São exemplos revistas como a Ler, o Jornal de Letras ou a renascida Os Meus Livros e críticos como José Mário Silva com o Bibliotecário de Babel e Sara Figueiredo Costa com o Cadeirão Voltaire.
A segunda análise, para os livros enquanto objecto. O que dizer dos e-books que ganham aos poucos terreno ao livro tradicional impresso em papel? Como tudo, tens prós e contras: por um lado concentra-se mais informação e aumenta-se a capacidade de armazenamento e a poupança de espaço; por outro lado perde-se a beleza das capas e o prazer de pegar num livro, analisar as badanas e sentir o cheiro do livro antes de começar a lê-lo.
E a relação dos livros com a internet, o que aí se fala deles e os que nela ou dela nascem? O tempo - que tanta falta faz nos dias de hoje - será o verdadeiro julgador que se encarregará de separar o trigo do joio. Assim como os leitores nas livrarias têm de fazer escolhas e com a excepção de algumas bestas céleres, para quem souber escolher, o que não presta acaba por desaparecer, também do lixo que surge nos biliões de páginas virtuais a qualidade acabará por vir à tona.
Como conclusão reitero o que escrevi no início: é tudo uma questão de escolha e de equilíbrio: entre o livro puro e a internet pura ficam a meio termo os ebooks. Serão eles a solução para um convívio harmonioso para quem gosta de ler e de navegar na internet?
A mim ainda não me convenceram. E a vocês?
Quanto ao que a minha experiência diz respeito não tenho muitas dúvidas: a internet é um meio de distracção como a televisão o era há uns anos atrás e continua a ser. Mas eu quando quero ler um livro, desligo a televisão, fecho o computador e leio. É uma questão de escolha e equilíbrio. Quanto à forma e velocidade como leio, noto apenas que o faço de maneira mais rápida e que fico impaciente mais cedo quando não gosto de um livro, do que ficava há uns anos atrás, mas isso pode ser facilmente justificado, como é óbvio, pelo incremento de exigência na qualidade que vou colocando nas minhas leituras.
No que diz respeito à importância da internet para os livros enquanto produto ou objecto a discussão é outra.
Primeiro, a análise como produto. Neste momento a internet é um meio cada vez mais importante, se não essencial, para as editoras, revistas e autores. Quase todos - especialmente os da nova geração, que representam o futuro da edição - já aderiram aos blogs e ao facebook. Os próprios cronistas e críticos das revistas da especialidade têm blogs e uma franja "significativa" de "fãs" nas redes sociais. São exemplos revistas como a Ler, o Jornal de Letras ou a renascida Os Meus Livros e críticos como José Mário Silva com o Bibliotecário de Babel e Sara Figueiredo Costa com o Cadeirão Voltaire.
A segunda análise, para os livros enquanto objecto. O que dizer dos e-books que ganham aos poucos terreno ao livro tradicional impresso em papel? Como tudo, tens prós e contras: por um lado concentra-se mais informação e aumenta-se a capacidade de armazenamento e a poupança de espaço; por outro lado perde-se a beleza das capas e o prazer de pegar num livro, analisar as badanas e sentir o cheiro do livro antes de começar a lê-lo.
E a relação dos livros com a internet, o que aí se fala deles e os que nela ou dela nascem? O tempo - que tanta falta faz nos dias de hoje - será o verdadeiro julgador que se encarregará de separar o trigo do joio. Assim como os leitores nas livrarias têm de fazer escolhas e com a excepção de algumas bestas céleres, para quem souber escolher, o que não presta acaba por desaparecer, também do lixo que surge nos biliões de páginas virtuais a qualidade acabará por vir à tona.
Como conclusão reitero o que escrevi no início: é tudo uma questão de escolha e de equilíbrio: entre o livro puro e a internet pura ficam a meio termo os ebooks. Serão eles a solução para um convívio harmonioso para quem gosta de ler e de navegar na internet?
A mim ainda não me convenceram. E a vocês?
31 de outubro de 2010
Richard Yates: "O Desfile de Primavera"
O Desfile de Primavera, com primeira edição em 1976 e re-editado pela Quetzal em 2010, apesar de não ter atingido, segundo a crítica, um patamar de excelência tão elevado como Revolutionary Road - talvez o mais lido e conhecido livro do autor, finalista do National Book Award no ano em que foi publicado - é considerado um dos melhores romances do escritor norte-americano.
A história relata a vida de duas irmãs e a relação algo conflituosa com a sua mãe, desde os anos trinta aos setenta do século passado. A mãe, Pookie (baseada nalguns traços da personalidade na própria mãe de Yates, Dookie) sempre quis viver acima das suas posses e dar o maior conforto possível às filhas. O seu divórcio com o pai de Sarah e Emily, revisor numa revista, foi para as vidas das duas irmãs uma marca precoce, como a cicatriz “azulada que descia da sobrancelha até à pálpebra”, que Sarah fez numa brincadeira de criança. O autor confronta-nos na primeira frase do livro com essa premissa, como que desafiando o leitor a ler o resto do livro tendo em conta esse acontecimento em particular. O próprio Richard Yates foi casado duas vezes e os seus pais divorciaram-se quando o autor tinha três anos.
Emily Grimes era a mais atinada e sensata das duas irmãs, mas também a mais insegura.
“Uma vez durante o dia, quando regressava ao escritório depois do almoço, viu o rosto petulante e macilento de uma mulher – um rosto que qualquer pessoa diria estar a envelhecer, repleto de rugas e olheiras, com uma boca débil e frustrada – e descobriu chocada que era ela própria, apanhada abruptamente no reflexo do vidro espelhado da montra de uma loja.”p. 224
Sarah era a mais bonita das duas e a que adoptou um estilo de vida mais conservador, casando cedo e tendo filhos. O nascimento dos filhos de Sarah era apenas mais uma oportunidade para Pookie criticar algo na vida das filhas.
“ – Oh, meu Deus, só fazem é procriar – disse Pookie ao receber a notícia da terceira gravidez. – Eu pensava que só os camponeses italianos é que faziam as coisas assim.
A terceira gravidez acabou por ser a última (...) mas Pookie encontrava sempre forma de sugerir, com um rolar compreensivo de olhos, que três era uma fartura.” p.53
O divórcio e a relação algo rancorosa da mãe com as filhas, e com o seu próprio destino, acaba por explicar ou pelo menos balizar em termos comparativos todos os outros problemas que afectarão a família ao longo dos anos: desde os problemas com a bebida aos traumas de infância mal resolvidos, as mudanças contínuas de casa, os casos de violência doméstica. Em resumo, um estudo literário claro – mas também um estudo social ao longo de várias décadas da sociedade americana e das suas mudanças culturais.
A crueza, a crueldade da vida, mas acima de tudo a realidade, estão também bem patentes na escrita de Yates.
(...) “Segurando três ou quatro garrafas debaixo de um dos braços, ela usava a mão livre para gesticular pelo apartamento. Todas as superfícies estavam encardidas. Os cinzeiros abarrotavam de beatas. – Anda cá ver isto. – Conduziu Emily à casa de banho e apontou para dentro da sanita, que estava castanha acima e abaixo da linha de água. – Oh, se ao menos ela tivesse ficado na cidade – disse Sarah -, com coisas para fazer e pessoas para ver. Porque aqui nunca havia nada para ela fazer. Ia sempre para a nossa casa, e não via televisão nem nos deixava ver televisão; punha-se a falar e a falar e a falar até Tony ficar à beira da loucura, e ela... ela...
- Eu sei, mana – disse Emily.
Desceram as escadas (...) e carregaram as braçadas de garrafas de uísque até à porta da cozinha da casa principal, onde as empurraram para o fundo de um caixote do lixo cheio de moscas.” p.140
Tudo parece óbvio, até o facto de termos de ler todas as palavras atentamente para absorvermos o segundo sentido implícito na escrita. O seu sentido de humor é silencioso e irónico. Sem preciosismos na prosa, sem metáforas inutéis. O que se passou em cada cena é o que aconteceu ou poderia acontecer na realidade. É o que o autor nos conta e aquilo em que acreditamos.
Embora Richard Yates sempre tenha sido bastante apreciado pela crítica especializada, nunca houve um acompanhamento no volume de vendas dos seus livros. Na altura da sua morte em 1992, praticamente todas as edições dos seus livros estavam esgotadas e sem perspectivas de re-edição. Esse facto alterou-se em parte devido a uma biografia escrita por Blake Bailey em 2003, “Uma Honestidade Trágica: Vida e Obra de Richard Yates” e pelo filme Revolutionary Road de Sam Mendes em 2008.
Em relação à edição da Quetzal é de facto cuidada: no design da capa, sóbrio e bem conseguido. Nota negativa para a revisão, que necessita ela própria de uma revisão numa possível edição futura.
Desfile de Primavera
Richard Yates
Quetzal
2010
A história relata a vida de duas irmãs e a relação algo conflituosa com a sua mãe, desde os anos trinta aos setenta do século passado. A mãe, Pookie (baseada nalguns traços da personalidade na própria mãe de Yates, Dookie) sempre quis viver acima das suas posses e dar o maior conforto possível às filhas. O seu divórcio com o pai de Sarah e Emily, revisor numa revista, foi para as vidas das duas irmãs uma marca precoce, como a cicatriz “azulada que descia da sobrancelha até à pálpebra”, que Sarah fez numa brincadeira de criança. O autor confronta-nos na primeira frase do livro com essa premissa, como que desafiando o leitor a ler o resto do livro tendo em conta esse acontecimento em particular. O próprio Richard Yates foi casado duas vezes e os seus pais divorciaram-se quando o autor tinha três anos.
Emily Grimes era a mais atinada e sensata das duas irmãs, mas também a mais insegura.
“Uma vez durante o dia, quando regressava ao escritório depois do almoço, viu o rosto petulante e macilento de uma mulher – um rosto que qualquer pessoa diria estar a envelhecer, repleto de rugas e olheiras, com uma boca débil e frustrada – e descobriu chocada que era ela própria, apanhada abruptamente no reflexo do vidro espelhado da montra de uma loja.”p. 224
Sarah era a mais bonita das duas e a que adoptou um estilo de vida mais conservador, casando cedo e tendo filhos. O nascimento dos filhos de Sarah era apenas mais uma oportunidade para Pookie criticar algo na vida das filhas.
“ – Oh, meu Deus, só fazem é procriar – disse Pookie ao receber a notícia da terceira gravidez. – Eu pensava que só os camponeses italianos é que faziam as coisas assim.
A terceira gravidez acabou por ser a última (...) mas Pookie encontrava sempre forma de sugerir, com um rolar compreensivo de olhos, que três era uma fartura.” p.53
O divórcio e a relação algo rancorosa da mãe com as filhas, e com o seu próprio destino, acaba por explicar ou pelo menos balizar em termos comparativos todos os outros problemas que afectarão a família ao longo dos anos: desde os problemas com a bebida aos traumas de infância mal resolvidos, as mudanças contínuas de casa, os casos de violência doméstica. Em resumo, um estudo literário claro – mas também um estudo social ao longo de várias décadas da sociedade americana e das suas mudanças culturais.
A crueza, a crueldade da vida, mas acima de tudo a realidade, estão também bem patentes na escrita de Yates.
(...) “Segurando três ou quatro garrafas debaixo de um dos braços, ela usava a mão livre para gesticular pelo apartamento. Todas as superfícies estavam encardidas. Os cinzeiros abarrotavam de beatas. – Anda cá ver isto. – Conduziu Emily à casa de banho e apontou para dentro da sanita, que estava castanha acima e abaixo da linha de água. – Oh, se ao menos ela tivesse ficado na cidade – disse Sarah -, com coisas para fazer e pessoas para ver. Porque aqui nunca havia nada para ela fazer. Ia sempre para a nossa casa, e não via televisão nem nos deixava ver televisão; punha-se a falar e a falar e a falar até Tony ficar à beira da loucura, e ela... ela...
- Eu sei, mana – disse Emily.
Desceram as escadas (...) e carregaram as braçadas de garrafas de uísque até à porta da cozinha da casa principal, onde as empurraram para o fundo de um caixote do lixo cheio de moscas.” p.140
Tudo parece óbvio, até o facto de termos de ler todas as palavras atentamente para absorvermos o segundo sentido implícito na escrita. O seu sentido de humor é silencioso e irónico. Sem preciosismos na prosa, sem metáforas inutéis. O que se passou em cada cena é o que aconteceu ou poderia acontecer na realidade. É o que o autor nos conta e aquilo em que acreditamos.
Embora Richard Yates sempre tenha sido bastante apreciado pela crítica especializada, nunca houve um acompanhamento no volume de vendas dos seus livros. Na altura da sua morte em 1992, praticamente todas as edições dos seus livros estavam esgotadas e sem perspectivas de re-edição. Esse facto alterou-se em parte devido a uma biografia escrita por Blake Bailey em 2003, “Uma Honestidade Trágica: Vida e Obra de Richard Yates” e pelo filme Revolutionary Road de Sam Mendes em 2008.
Em relação à edição da Quetzal é de facto cuidada: no design da capa, sóbrio e bem conseguido. Nota negativa para a revisão, que necessita ela própria de uma revisão numa possível edição futura.
Desfile de Primavera
Richard Yates
Quetzal
2010
Richard Yates sobre Lisboa (O Desfile da Primavera, Quetzal)
"Insistiam ambos que gostaram de Barcelona - tinha árvores e uma brisa marinha; encontraram um quarto arejado a bom preço, e havia lugares agradáveis para se sentar e bebia uma cerveja ao fim do dia - mas Madrid era tão inescrutável e implacável quanto Londres. A única coisa boa em Madrid, dizia Jack, era o bar do hotel onde ficaram, em que serviam boas quantidades de uísque sempre que lhes pedia um güisqui escoso.
Depois foram a Lisboa, e chegou a altura de regressarem a casa. "
Depois foram a Lisboa, e chegou a altura de regressarem a casa. "
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